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HORÁRIOS: de quinta a sábado, de 12h às 20h e domingo, de 9h às 17h.

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Dia da Visibilidade Trans: Pinacoteca do Ceará propõe novo olhar sobre a arte cearense

Isadora Ravena, Existo amanhã, 2021, Coleção da artista.

Saiba mais sobre o estudo da pesquisadora Isadora Ravena, bolsista do I Edital de Pesquisa e Criação, lançado pelo museu em 2023, que analisou trabalhos da exposição “Se arar”

Pulsante, dinâmica e criativa. A arte cearense é resultado de um diálogo entre as culturas europeia e ameríndia, com tradição sertaneja, além da influência afro-brasileira. Até aqui, uma série de artistas, obras e heranças fizeram parte da trajetória artística no estado. É nesse caldeirão cultural que a Pinacoteca do Ceará surge, com o objetivo de salvaguardar, preservar, pesquisar e difundir a coleção de arte do Governo do Estado. Na mostra de abertura do museu, a “Bonito pra chover”, a exposição “Se arar” se destaca por lançar um olhar sobre a história da arte cearense.

No espaço expositivo, além das obras do acervo do museu, há trabalhos de diversos artistas convidados. Entre estes, artistas travestis que utilizam diferentes expressões visuais, desde a produção de fotopinturas até projetos audiovisuais, com temáticas que abordam o luto da cisgeneridade, a “travestilidade” e a ancestralidade travesti.

O estudo desse conjunto de obras foi o que propôs a pesquisadora Isadora Ravena. Por meio do I Edital de Pesquisa e Criação da Pinacoteca do Ceará, a artista produziu o trabalho “Por um panorama crítico das travecametodologias de criação na exposição ‘Se arar’”. Ela, que é mestre em Artes e doutoranda em Artes Cênicas, utiliza o conceito de “travecametodologias” – metodologias travestis – a fim de entender de que forma essas obras foram pensadas, assim como as inspirações e decisões das artistas.

“Procurei obter um olhar mais apurado para as obras das travestis que compunham esse espaço: Trojany, Pedra Silva, Indja, Sy Gomes, Linga Acácio, Vita da Silva, Noá Bonoba, do Coletivo Carnaval no Inferno, e sobre minha própria obra”, explica a artista no trabalho final de sua pesquisa.

Como as pessoas trans transformam o gênero e a estética?

Noá Bonoba, Travomantra, 2020, Coleção da artista.

Para Isadora Ravena, o Edital de Pesquisa e Criação possibilitou a pesquisa e a concretização das reflexões teóricas desenvolvidas no espaço. “Pude ter acesso à estrutura do museu para que os estudos se desenvolvessem, que veio não só pelo espaço físico que a Pinacoteca dispõe, mas também pelo contato e a convivência com as obras”, destaca.

Ravena considera a inserção de corpos trans e travestis na arte como um ‘colapso estético’. Ou seja, há um movimento construído pela obra em diálogo direto com o espectador, que até pouco tempo não tinha contato com a produção artística de travestis em museus. “Acabam por trazer não só novas temáticas, mas também novos modos de fazer arte, novas metodologias técnicas, assim como novas formas de ver o mundo”, diz a artista.

“Se há uma conjuntura política que aniquila esses corpos, que os mata e patologiza, essas presenças na arte têm o poder de arrancar a travestilidade e a transgeneridade de um lugar de violência”, pontua. Assim, para a pesquisadora, é por meio da arte que há uma transformação do imaginário sobre essas existências.

Novo olhares

Trojany, Morango do nordeste, 2021, Coleção da artista.

Isadora realizou a pesquisa em obras na exposição “Se Arar” como “Morango do Nordeste”, da artista Trojany, e “Travomantra”, de Noá Bonoba. Trojany estabelece uma produção de fotopinturas com recursos da Inteligência Artificial (IA), provocando novas técnicas de restauração e colorização de fotografias. “Eu percebi que ela vai ativando uma metodologia de ‘bug’, que gera pane na própria máquina, gera questionamentos tanto sobre a suposição travesti, mas que diz respeito também a sua raça”.

Na obra de Noá Bonoba, a artista começa a observar a formação de quadros solares na parede durante a pandemia. “Durante a observação, que durou cerca de dois meses, Noá passou a fotografar e colar post-its para marcar o lugar onde os quadros iam surgindo ao longo do dia, além dos horários”, explica Isadora em seu projeto.

“Ela gera um convite à saída desse eixo gravitacional, desse processo de tentativa de racionalização, e também propõe um debate e reflexão sobre a lucidez, já que, enquanto travestis, sempre fomos postas enquanto loucas”, diz Ravena.

Isadora propõe ainda um olhar sobre sua própria obra, “Existo Amanhã”, realizando um estudo crítico e analítico sobre a presença da produção na “Se arar”. “É um olhar enquanto curadora de si, curadora da própria obra, que também convoca, junto com as outras, uma perspectiva de travestilidade”, diz a pesquisadora.

Na pesquisa, Isadora destaca que as obras propõem uma nova abertura à compreensão da arte no Ceará. “Acabam por produzir novas ecologias, de fato, para a exposição”, explica. Ravena diz ainda que esse movimento traz um novo olhar sobre a região, feito a partir do movimento de artistas trans e travestis. “As obras na exposição ‘Se arar’ fertilizam o solo árido e acabam por fazer nascer novas percepções em outros campos sensoriais”, finaliza.

SERVIÇO

O quê: Exposição “Se Arar”

Quando: Em cartaz de quinta a sábado, das 12h às 20h, e aos domingos, de 10h às 18h, com entrada até 30 minutos antes do fechamento do museu.

Onde: Pinacoteca do Ceará (Rua 24 de maio, s/n, Centro)

Acesso gratuito

A exposição tem classificação livre para todos os públicos. Obras consideradas não recomendadas para crianças ou adolescentes estão indicadas na sinalização do espaço.

 

Texto: Alessandro Fernandes, sob supervisão e edição de Raphaelle Batista e Silvia Bessa.

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