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Você se lembra da primeira vez que foi à praia?

Foto: Lia de Paula

A água consegue nos provocar diversas sensações, memórias afetivas, acolhimento, refrescância, sufoco e afeto. Temos uma ligação predeterminada com esse elemento, dentro da barriga estamos na água e quando a gente sai, a gente chora. A água é um meio de vida, de religião, é preciso ter coragem para enfrentar as correntezas de um mar em fúria e desconfiar das águas paradas de um rio, mas ainda mais corajoso é permitir transbordar o nascedouro dos olhos, que deságua não somente no mar, mas no que carregamos conosco: seja uma correnteza, uma saudade, um sentimento de tentar novamente ou nunca mais…

Foto: Lia de Paula

“Nascedouros” é uma visita mediada parte do projeto “Percursos Entrelaçados”, programa de ação formativa oferecido pela Pinacoteca do Ceará, cujo objetivo busca despertar o público para a poética de estar imerso em águas profundas, aquelas que navegamos por dentro de nós mesmos e por onde viemos.
Melissa Maciel acabou de retornar à terra natal e se sentiu convidada e acolhida pela mediação em sua primeira visita à Pinacoteca do Ceará. A enfermeira obstetra, com sua sensibilidade de trabalhar com vida, água e seu poder de transformação, mareja os olhos ao contar como a experiência a afetou. “Ressignifiquei minhas conexões com minha terra e meu bairro” e lembra do avô que se dizia igual a um “tejo pra chuva” – crença nordestina na qual o réptil tejo prevê o temporal -, quando ela o escutava falar do céu “tá bonito pra chover”, nome da primeira mostra do museu que contempla as três exposições em cartaz “Se arar”, “No lápis da vida não tem borracha” e “Amar se aprende amando”.

Entrelaçando as obras
Os visitantes se reúnem no início do percurso, mas se é sobre água, porque começar falando da falta dela? Segundo a arte-educadora e criadora do percurso Andrea Dalveroni, a obra “Relicário da Seca” (2013), de Zé Tarcísio “foi para trazer na discussão a necessidade da água para o ser humano, bem como os impactos da seca”. As águas não se esquecem, e com a obra de Gerson Farias, nós também não. “Volta da Jurema” (1929) é uma pintura da paisagem de um trecho da praia da beira mar no século XX.
Depois, a reflexão sobre o mar de longe e mar de perto amontoam sensações em nosso interior possibilitando dar um mergulho ou até mesmo ficar no raso sentindo a maresia nos borrar a visão. Olhar os jangadeiros cearenses e pescadores na paisagem nos faz imaginar a vida de alguém que vive o mar, sabe lidar com suas fases, da fúria à calmaria, tiram de lá seu sustento e suas poesias, faz seu navio, seu quarto, caminha com a mesma coragem de quem mergulha onde não se pode tocar o chão. Voltamos à superfície e tomamos um fôlego com a poesia de Maíra Ortins e a dica do filme “A paixão de JL”, para quem morre pela boca e vive pelos olhos.

Porém, a mesma água que é um meio de vida e de religião é também um privilégio, o percurso convida à reflexão sobre recursos hídricos e descasos sociais, se não me falha a memória, enquanto aguarda as obras inacabadas, o Poço da Draga convive com falta de saneamento básico, eles esquecem que perante a água somos todos iguais. E, por fim, entre navegações em curva de mar novo, a paragem é necessária, e como pássaros que só pousam quando se sentem seguros, o percurso chega a seu fim na exposição vizinha “Negros na Piscina”, onde a arte-educadora e os visitantes sentam-se ao lado das esculturas de passarinhos de Efraim Almeida e distribui pequenos papeis para serem anotados alguns pensamentos sobre o percurso. O que a água te desperta?
A Pinacoteca do Ceará, tem como objetivo se firmar como um espaço de experimentação, pesquisa e reflexão e, assim, promover o diálogo entre arte e educação a partir da dinâmica de práticas artísticas. O programa “Percursos Entrelaçados” acontece às quintas e aos sábados, das 16h às 17h e oferece visitas mediadas com públicos diversos, com destaque para grupos escolares, proporcionando acesso às práticas educativas no âmbito social, financeiro, de escolaridade, cognitivo e de acessibilidade.

Obras mediadas no percurso:
“Relicário da Seca”, Zé Tarcísio
“Mar de longe, mar de perto”, Alexandre Veras
“Jangadeiro cearense”, Raimundo Cela
“Pescadores na paisagem”, Aderson Medeiros
“Totem-Arrastão”, Thadeu Dias
“Volta da Jurema”, Gerson Farias
“O navio”, Leonilson
“Sem título (Série Porque é nos olhos que eu carrego o mar”, Maíra Ortins
“O mundo bate do outro lado da minha porta”, Ticiano Monteiro
“(+) mais um dia”, Cláudia Sampaio
“Feitiçamentos da língua”, Maria Macêdo
“Se não me falha a memória”, Samuel Tomé
“Curva de Mar Novo/Paragem”, Waléria Américo

 

Texto: Dhara Amorim, com supervisão de Adriana Santiago

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